Saúde

COVID deixa marcas duradouras: estudo revela danos a órgãos até um ano após internação
Pesquisa com mais de 59 mil pacientes na Bélgica aponta aumento significativo de complicações cardiovasculares e pulmonares — com impacto maior entre casos graves e populações de menor renda
Por MaisConhecer - 14/04/2026


Imagem: Reprodução


Um amplo estudo publicado nesta terça-feira (14), na revista Nature Communications, lança nova luz sobre os efeitos prolongados da Covid-19: pacientes hospitalizados pela doença apresentam risco significativamente maior de desenvolver complicações em órgãos vitais até um ano após a alta. A pesquisa, liderada pela epidemiologista Lisa Cavillot, do Sciensano — instituto nacional de saúde da Bélgica —, revela que os impactos vão além da fase aguda e expõem desigualdades sociais persistentes no pós-pandemia.

A investigação analisou dados de 59.351 adultos hospitalizados, sem doenças prévias nos órgãos avaliados, comparando pacientes com Covid-19 a outros internados por diferentes causas. O resultado é contundente: houve aumento de 19% no risco de complicações cardiovasculares e mais que o dobro no risco de problemas pulmonares ao longo de um ano após a hospitalização.

“Os efeitos da Covid-19 não terminam na alta hospitalar”, afirma Cavillot. “Nosso estudo mostra que há uma necessidade urgente de acompanhamento clínico prolongado, especialmente entre pacientes que tiveram formas graves da doença.”


Pulmões e coração sob pressão

Os dados indicam que 14,8% dos pacientes com Covid-19 desenvolveram complicações cardiovasculares no período de um ano, contra 8,7% no grupo de controle. Já as complicações pulmonares atingiram 6,5% dos infectados, mais que o dobro dos 3% observados entre os demais hospitalizados.

Entre os casos mais críticos — aqueles que exigiram UTI ou apresentaram síndrome respiratória aguda grave —, o cenário é ainda mais preocupante. O risco de problemas cardiovasculares quase dobrou, enquanto as complicações pulmonares chegaram a ser quase três vezes mais frequentes.

Segundo Brecht Devleesschauwer, coautor do estudo e pesquisador da Universidade de Ghent, os resultados reforçam evidências internacionais. “Há um padrão consistente mostrando que a Covid-19 pode desencadear uma cascata inflamatória que afeta múltiplos sistemas do corpo, mesmo meses após a infecção inicial”, explica.

Desigualdade também adoece

Além dos impactos clínicos, o estudo destaca um fator estrutural: a desigualdade socioeconômica. Pacientes de baixa renda apresentaram 53% mais chance de desenvolver complicações pulmonares após quadros graves de Covid-19, em comparação com aqueles de renda mais alta.

“A pandemia expôs e ampliou desigualdades já existentes”, afirma Jinane Ghattas, pesquisadora da Universidade de Louvain e coautora do trabalho. “Condições de vida, acesso à saúde e fatores como trabalho essencial influenciam não apenas a exposição ao vírus, mas também a recuperação.”

Curiosamente, o estudo não encontrou um padrão socioeconômico claro para complicações cardiovasculares, o que sugere que diferentes mecanismos biológicos e sociais podem estar em jogo.

Os achados se inserem no contexto mais amplo da chamada “Covid longa” — ou síndrome pós-Covid —, definida pela Organização Mundial da Saúde como a persistência de sintomas por mais de três meses após a infecção.

Estima-se que mais da metade dos pacientes hospitalizados apresente algum sintoma persistente meses após a doença. Fadiga, falta de ar, dor no peito e dificuldades cognitivas estão entre os mais comuns.

No estudo belga, os pesquisadores focaram especificamente em complicações orgânicas mensuráveis — como doenças cardíacas e pulmonares —, o que reforça a gravidade do problema. “Estamos olhando para consequências clínicas objetivas, que demandam tratamento e acompanhamento”, ressalta Cavillot.

Contexto histórico e impacto global

A Bélgica, país que serviu de base para o estudo, registrou mais de 150 mil hospitalizações por Covid-19 até o início de 2024. Com uma população envelhecida e alta prevalência de doenças cardiovasculares, o país oferece um retrato relevante para entender os impactos de longo prazo da pandemia.

Globalmente, a Covid-19 já deixou milhões de sobreviventes com sequelas. Estudos anteriores nos Estados Unidos e no Reino Unido já haviam apontado aumento de eventos cardíacos e respiratórios após a infecção, mas poucos haviam acompanhado pacientes por um período tão longo com dados tão robustos.

Os autores reconhecem limitações no estudo, como a ausência de dados clínicos detalhados sobre sintomas como fadiga e depressão, além de possíveis subnotificações. Ainda assim, destacam a solidez metodológica, baseada em registros nacionais e técnicas estatísticas avançadas.

Para os pesquisadores, o próximo passo é aprofundar a análise de outros fatores, como vacinação, variantes do vírus e acesso a serviços de saúde. “Precisamos entender melhor quem está mais vulnerável e por quê”, afirma Devleesschauwer.

Um alerta para sistemas de saúde

O principal recado do estudo é claro: os sistemas de saúde precisam se preparar para lidar com as consequências de longo prazo da Covid-19.

“O foco não pode ser apenas na fase aguda da doença”, diz Cavillot. “É fundamental implementar estratégias de tratamento contínuo, especialmente para pacientes mais graves e grupos socialmente vulneráveis.”

Se, no auge da pandemia, o desafio era salvar vidas, agora a missão é garantir qualidade de vida aos sobreviventes — um desafio que pode se estender por anos.


Referência
Cavillot, L., Van den Borre, L., Ghattas, J. et al. Complicações orgânicas pós-agudas no prazo de um ano após a hospitalização por COVID-19 e desigualdades socioeconômicas relacionadas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71486-w

 

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